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Carta para O Globo em defesa da UFRJ

Recebi um e-mail repassando uma carta escrita a redação do jornal O Globo, pela professora Leda dos Reis Castilho, sobre uma matéria publicada nesta edição de domingo chamada “Ensino superior, mas nem tanto”.

Reconheço que a UFRJ tem seus problemas, assim como muita coisa aqui no Brasil, mas realmente não gosto da postura de só meter o pau e apresentar dados sem contextos nem direito de resposta.

Então aqui estou copiando a carta da professora e em seguida o texto da matéria, para quem ainda não leu:

Carta:

Ilmo. Sr. Editor d’O Globo:

Foi com surpresa e indignação que li a reportagem (com chamada de 1ª página) de domingo, 11/7/10, intitulada “Ensino superior, mas nem tanto”. A matéria toma exemplos isolados para destacar apenas aspectos negativos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ignorando o excelente desempenho apresentado pelos seus egressos em concursos e em provas nacionais como o ENADE, desempenho este confirmado pela preferência do mercado de trabalho por profissionais formados na UFRJ.

Mostrando números oriundos de uma única fonte, a matéria ignora dados públicos disponíveis no site da PR3-UFRJ que demonstram que, em 2009, foram iniciadas e/ou licitadas inúmeras obras (salas de aula, restaurantes universitários, bibliotecas, etc.), financiadas pelo programa do governo federal REUNI, de expansão das universidades federais. A matéria ignora, ainda, que a adesão ao referido programa foi voluntária e amplamente discutida nos colegiados de cada uma das faculdades envolvidas. Nenhuma decisão de aumento de vagas foi tomada de forma irresponsável. A contratação, somente em 2010, de 500 novos professores, e o aumento em cerca de 10 vezes (de 3,6 para 34,6 milhões de reais), entre 2003 e 2008, das verbas de investimento repassadas pelo governo federal à UFRJ, são uma prova disso.

O número de vagas nas universidades federais aproximadamente dobrou entre 2003 e 2008, como diz a matéria. É fato notório que, em empreendimentos de qualquer tipo, aumentos de tamanho/quantidade resultam em ganhos de escala. Portanto, considerando que as universidades federais agora atendem ao dobro do número de alunos, com manutenção do valor por aluno investido pelo MEC (alteração de apenas 3,8%, de R$ 15.341 para R$ 14.763), chega-se a uma conclusão diferente daquela sugerida pela matéria: levando-se em conta o ganho de escala, certamente as condições de financiamento hoje são melhores do que antes.

O campus da Ilha do Fundão tem fluxo diário de pessoas aproximadamente igual ao dobro da população da Cidade de Deus e área ocupada similar à de Ipanema e Leblon juntos. Se os índices de criminalidade mencionados na matéria forem comparados àqueles registrados nestes dois nobres bairros da cidade, certamente a conclusão será de que é mais seguro transitar pelo Fundão do que por Ipanema. Por que não fazer uma matéria levantando estes dados?

Nos últimos anos, vêm se repetindo, sempre às vésperas das inscrições no vestibular, matérias negativas sobre a UFRJ n’O Globo. Por que o jornal não publica matérias extensas sobre a UFRJ também em outras épocas do ano? Por que o jornal não relata a preferência do mercado de trabalho por profissionais formados na UFRJ?

O MEC e a UFRJ estão tomando ações concretas com o objetivo de que nossa universidade continue oferecendo um ensino de alto padrão, a um número ainda maior de brasileiros. O campus da Ilha do Fundão está passando por uma revolução que o transformará, ao longo da década que ora se inicia, em uma cidade universitária de dar inveja às universidades dos países mais ricos. Eu gostaria de desafiar O Globo a fazer uma matéria sobre as obras atualmente em andamento na UFRJ, dando maiores informações ao grande público sobre o Plano Diretor UFRJ 2020 (www.ufrj.br).

Se a UFRJ, na década de 1990, soube manter a excelência de seu ensino mesmo frente ao descaso e abandono de então, por parte do governo federal, certamente não será nesta década, marcada por muitos novos investimentos, mais verbas e novos docentes, que deixaremos de oferecer um ensino superior do mais alto padrão. E certamente seremos capazes de fazê-lo para um número ainda maior de brasileiros.

Atenciosamente,
Profa. Dra. Leda R. Castilho
COPPE/UFRJ

E aqui a matéria original, “Ensino superior, mas nem tanto”, publicada em 11/07/2010:

Ensino superior, mas nem tanto (O Globo, 11/7)

Governo amplia rede de universidades, mas UFRJ, a mais antiga, sofre com falta de manutenção, insegurança e expansão desordenada

Prestes a deixar o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz ter criado mais universidades federais que qualquer outro presidente. Mas oito das 13 que afirma ter feito, na verdade, já existiam e foram ampliadas ou federalizadas. Enquanto isso, porém, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a primeira do Brasil, sofre com a falta de estrutura e a expansão desordenada, o que compromete a qualidade dos cursos. Na medicina, turmas com até cem alunos têm aulas de anatomia em só duas peças de cadáver. Na arquitetura, as pranchetas usadas são obsoletas, reclamam os alunos. Na comunicação, das 12 câmeras fotográficas, seis estão quebradas.

Há problemas graves ainda no alojamento e no Hospital Clementino Fraga Filho, usado como hospital escola.

Nos dois últimos anos, 22 novos cursos de graduação foram criados na UFRJ. A meta é que até 2020 o número de alunos mais que duplique e saia dos 41.007 de 2008 para 88.530. Porém, na contramão dessa corrida pelo ensino superior – um dos temas-chave da eleição presidencial deste ano, já que a falta de mão de obra qualificada é um dos gargalos do desenvolvimento do país -, o investimento público direto em educação por estudante na educação superior, segundo o Ministério da Educação (MEC), caiu de R$ 15.341 em 2000 para R$ 14.763 em 2008.

Além disso, apesar de o orçamento do Ministério da Educação ter aumentado em valores absolutos nos últimos anos – de R$ 16,5 bilhões em 2003 para R$ 36 bilhões em 2009 -, o percentual do orçamento do MEC em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) teve ligeira queda, segundo estudo da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj) com dados do Senado e do IBGE: de 1,1% do PIB em 2003 para 1,04% em 2009.

– O orçamento do MEC, em termos absolutos, cresceu porque o PIB cresceu, e não porque tenha havido aumento da parcela do orçamento federal – diz Luis Eduardo Acosta, presidente da Adufrj.

O MEC contesta esses percentuais, sem dizer, porém, quais seriam os corretos: o orçamento informado pelo ministério soma o orçamento da pasta com verba do Financiamento Estudantil (Fies, da Caixa) e do salário-educação.

Ao todo, desde 2003, o país ganhou 117 campus e o número de vagas foi de 109,2 mil para 222,4 mil em 2010.

Porém, a relação da função “educação superior” no orçamento federal em relação ao PIB também não cresceu: de cerca de 0,46% em 2003, foi para 0,4% em 2008, diz o estudo.

“São anos de abandono”

A criação de novas universidades pelo governo faz parte do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), programa de ampliação do ensino superior que inclui também a expansão de universidades já existentes. Para participar, as universidades pactuam metas de aumento de número de vagas, algumas vezes sem condições de cumpri-las.

Da primeira turma de Relações Internacionais, Tomaz Soares fez vestibular achando que teria aulas no campus da Praia Vermelha, Zona Sul do Rio. Dias antes do início do período, descobriu que as aulas seriam numa sala do Centro de Ciências da Saúde, no Fundão. No começo deste ano, começou a ter aulas no Centro.

– Esperava uma faculdade de excelência, mas parece que a UFRJ vive mais de nome – diz Tomaz.

Para Pablo César Benetti, presidente da Comissão do Plano Diretor da UFRJ, que gerencia a execução das metas da universidade no Reuni, não oferecer um curso por gargalos de infraestrutura “é burrice”:

– Os alunos terem aula no Fundão não é problema. Eles podem consultar bibliotecas na Praia Vermelha e no Centro. A universidade não é uma unidade isolada. Querer uma sala mostra mentalidade tacanha.

Segundo Benetti, a UFRJ recebeu, para o biênio 2009-2010, R$ 117 milhões para investir em obras e equipamentos, incluindo laboratórios didáticos de informática, compra de veículos para ronda e mobiliário: – Nunca tivemos tanto dinheiro.

Para Claudio Antonio Tonegutti, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), as universidades não querem abrir mão do dinheiro e das vagas de concurso do Reuni, e por isso dizem que cumprirão metas não factíveis:

– As metas têm de ser cumpridas de 2008 a 2011, é uma expansão rápida demais para estruturas já tão complicadas.

Reuni à parte, a UFRJ continua com problemas antigos, como a insegurança no Fundão, que, em 2009, teve 30 casos registrados de furto, 11 de roubo, um estupro e dois seqüestros relâmpago. Com a mesma extensão de Ipanema e Leblon, o campus conta só com quatro carros da PM – Ipanema e Leblon têm cem PMs em seu entorno -, além de seis veículos e de 70 vigilantes da universidade.

Na tarde da última terça-feira, no subsolo do Centro de Ciências da Saúde, não havia vigilantes. Foi no subsolo onde, em 2009, uma professora e alunas de nutrição foram assaltadas por um homem armado.

– Os corredores são isolados. Depois das 17h nem gosto de andar muito por aqui – diz Alessandra Siqueira, do 5operíodo de nutrição.

Outro problema de infraestrutura no Fundão é o alojamento de estudantes, hoje com 500 vagas. Prefeito da UFRJ, Hélio de Mattos reconhece os problemas: – São anos de abandono. O prédio está condenado.

O prédio do Hospital do Fundão também não está muito melhor: no fim de junho, uma ala foi interditada devido a um abalo em dois pilares.

Parte das enfermarias do 8oao 11oandar está sem funcionar até hoje.

– Temos um hospital enorme e leitos vazios. Nas aulas, muitas vezes 30 alunos ficam ao redor de um só paciente – conta Ricardo Rebelo, do 5operíodo de medicina.

– Não espero ver o anexo da Central de Produção Multimídia pronto antes de me formar – diz Kenzo Soares, aluno do 3º período de comunicação.

(Alessandra Duarte e Carolina Benevides)

Categorias:UFRJ
  1. julho 14, 2010 às 5:46 pm

    Quantos anos são muitos anos?

    Luis Paulo Vieira Braga

    Um jornal de grande circulação no Rio de Janeiro publicou reportagem de página inteira sobre as precárias condições da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ex-Universidade do Brasil. A reportagem não mente quando relaciona os problemas do Alojamento Universitário, do Hospital Clementino Fraga Filho, da falta de segurança, da expansão irracional do programa REUNI e até mesmo das limitações orçamentárias da Educação no Brasil. No entanto, não aprofunda as causas das enormes discrepâncias da jóia da coroa das universidades estatais brasileiras. Para um de seus dirigentes os problemas que a universidade enfrenta são devidos aos anos de abandono da infra-estrutura. Considerando que atual reitoria cumpre seu segundo mandato, paira a indagação – Quantos anos são muitos anos?

    Um visitante que percorra os diferentes campi da UFRJ (Praia Vermelha, Fundão, Macaé, entre outros), ou suas unidades isoladas ativas, inativas ou parcialmente ativas vai se deparar com realidades contrastantes. Das ruínas do Hospital São Francisco aos prédios novos da COPPE. Das salas novas em Macaé ao subsolo insalubre do CCS. Da transparência das reuniões do CONSUNI à confidencialidade de suas inúmeras Fundações (FUJB, COPPETEC, ENGETEC, BIORIO, CCMN, entre outras). Do futurismo de seu plano diretor à realidade da expansão geométrica das instalações da Petrobrás no Fundão. A conclusão imediata que o nosso virtual visitante alcançaria é uma só – A UFRJ está no Brasil, naquilo que ele tem de pior, e de melhor, não necessariamente em iguais ou favoráveis proporções…

    De uma maneira geral, as universidades federais usufruem muito pouca autonomia. Todas as fatias de reforma universitária contempladas nos últimos anos (Quantos?) se originaram no executivo: PROUNI, REUNI, Nova Carreira, BI, NOVO ENEM, etc. A única tarefa que coube aos dirigentes foi a de empurrar goela abaixo da comunidade universitária a adesão aos éditos ministeriais, fossem eles oriundos do MEC ou do MCT. Entretanto, a verticalização não se propaga para o interior da organização. O reitor da UFRJ, e acredito na maioria das universidades federais, é pouco mais do que um síndico. As agências de fomento e as fundações exercem um enorme poder de intervenção, porque controlam verbas extra-orçamentárias vultosas e fluidas, promovendo planos paralelos de cargos e salários e outras prioridades na infra-estrutura. Somente quando se tem consciência desse fato é que se pode compreender a dinâmica heterodoxa da UFRJ que combina pacientes abandonando seus leitos às pressas no Hospital Universitário com desfiles em bicicletas alugadas pelo campus do Fundão.

    É isso que falta dizer na reportagem divulgada na edição de Domingo do grande jornal. Por um lado, estabelecer a autonomia das universidades estatais para que sejam universidades públicas, e por outro instaurar a autoridade internamente. Somente assim será possível planejar e sustentar o seu crescimento de forma harmoniosa e justa.

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